
Abraço
Por que me olha assim?
Como se ao olhar nada visse
E ao ver melhor nada sente.
É nesse olhar de passagem
Que me torno transparente.
Não percebe que já me esqueci?
Não existo mais aqui!
O que fui já doei ao passado
E o que sou já roubei ao futuro
Projecto inacabado
De um abrigo sem tecto
Num rio sem ponte
Do lado de cá de um muro.
As pedras que pisa,
Cama fria e dura
Em que me deito,
Já não falam de mim.
Não percebe que quem fui
Já não vive?
E quem vive
Não quer ser olhado assim?!
Porque só fala de mim,
como parte de um todo,
esquecido,
num buraco sem fim?
Porque não fala para mim?
Sobre o que poderei ser ainda,
Mesmo trazendo no rosto o cansaço,
Se sentir um novo olhar,
E o abrigo aconchegado
de um abraço?
ana claudia albergaria